terça-feira, 5 de outubro de 2010
Quantos votos tiveram e qual o patrimônio dos candidatos?
Confiram quantos votos os candidatos conseguiram nesta eleição e, de quebra, qual o patrimônio declarado de cada um deles! É beeeeeem interessante!
Divirtam-se!
http://placar.eleicoes.uol.com.br/2010/1turno/sp/
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Ahmadinejad sugere que ataques de 11 de Setembro foram planejados pelos EUA
Ahmadinejad sugere que ataques de 11 de Setembro foram planejados pelos EUA
Do UOL Notícias*Em São Paulo
O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, declarou nesta quinta-feira (23) que “a maioria das pessoas concordam” que os ataques de 11 de Setembro de 2001 foram planejados por “segmentos do governo norte-americano”.
Em discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente iraniano lembrou os inúmeros registros em vídeo dos ataques que derrubaram as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e atingiram o Pentágono.
“Quase todos os governos e figuras proeminentes condenaram fortemente o incidente”, prosseguiu. “Mas então a máquina de propaganda veio com força total. Ficou implícito que todo o mundo estava exposto a um enorme perigo, ou seja, o terrorismo, e que a única maneira de salvar o mundo seria enviar forças militares para o Afeganistão”.
“Fala-se em três mil mortos no 11 de Setembro, pelos quais todos nós estamos tristes. Ainda assim, até agora, centenas de milhares de pessoas foram assassinadas no Afeganistão e no Iraque, milhões ficaram feridas ou se tornaram refugiadas, e o conflito ainda está acontecendo e se expandindo”, acrescentou Ahmadinejad.
Em seguida, afirma que há “três pontos de vista” a respeito da identificação dos responsáveis pelo ataque. O primeiro deles é que “um grupo terrorista poderoso e complexo” superou a defesa e a inteligência dos EUA e conseguiu realizar o ataque.
Uma outra teoria, segundo Ahmadinejad, é que “alguns setores dentro do governo norte-americano orquestraram o ataque para reverter o declínio da economia americana e de seu domínio no Oriente Médio, com objetivo de salvar o regime sionista”.
“A maioria dos americanos assim como a maioria das nações e dos políticos ao redor do mundo concordam com essa visão”, afirmou o iraniano.
As declarações provocaram reação imediata da delegação norte-americana, que deixou o auditório principal, na sede da ONU, antes de ouvir a terceira hipótese de Ahmadinejad, que “o ataque foi realizado por terroristas, mas o governo americano apoiou e tirou vantagem da situação”.
O iraniano questiona: “Assumindo o ponto de vista do governo americano, é racional lançar uma guerra clássica com larga movimentação de tropas que leva à morte de centenas de milhares de pessoas para deter um grupo terrorista?”
Em respeito às “questões em aberto”, o Irã propôs que as Nações Unidas montem um grupo independente para investigar o 11 de Setembro, “de modo que no futuro não seja proibido expressar visões [diferentes] a esse respeito”.
Os Estados Unidos foram rápidos manifestar repúdio às hipóteses do presidente da República Islâmica. “Ao invés de representar as aspirações e boa-vontade do povo iraniano, Ahmadinejad novamente escolheu espalhar desprezíveis teorias conspiratórias e insultos antissemitas que são tão repugnantes quanto previsíveis”, afirmou Mark Kornblau em uma declaração escrita.
E você, o que pensa a respeito?
domingo, 19 de setembro de 2010
A ARMA DOS PODEROSOS - Noam Chomsky
Comecemos pela situação no Afeganistão. Haveria, no Afeganistão, vários milhões de pessoas ameaçadas pela fome. Isso era verdadeiro já antes dos atentados; elas sobreviviam graças à ajuda internacional. No dia 16 de setembro, os Estados Unidos exigiram, no entanto, que o Paquistão suspendesse os comboios de caminhões que levavam alimentos e outros produtos de primeira necessidade para a população afegã. Essa decisão não provocou reação alguma no Ocidente. A retirada de parte do pessoal humanitário tornou a assistência ainda mais problemática. Uma semana após o início dos bombardeios, a ONU considerava que a aproximação do inverno tornaria impossíveis as entregas, já reduzidas à quantidade de alimentos apenas suficiente para sobreviver devido aos ataques da aviação norte-americana.
Quando organizações humanitárias, civis e religiosas, e o relator da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) pediram a suspensão dos bombardeios, a informação nem sequer foi publicada pelo New York Times; o Boston Globe dedicou-lhe uma linha inserida num artigo que tratava de outro assunto: a situação na Caxemira. Em outubro passado, portanto, a civilização ocidental resignou-se a ver morrerem centenas de milhares de afegãos. No mesmo momento, o chefe dessa mesma civilização informava que não se dignaria a responder às propostas afegãs de negociação sobre a questão da entrega de Osama bin Laden nem à exigência de uma prova que permitisse fundamentar uma eventual decisão de extradição. Só seria aceita uma capitulação incondicional.
Mas voltemos ao 11 de setembro. Nenhum crime, nada foi mais mortífero na história — ou, então, o foi durante um período mais longo. De resto, as armas, desta vez, visaram a um alvo não habitual: os Estados Unidos. A analogia com Pearl Harbour, muitas vezes evocada, é inadequada. Em 1941, o exército nipônico bombardeou bases militares em duas colônias de que os Estados Unidos se haviam apossado em condições pouco recomendáveis; os japoneses não atacaram o território norte-americano propriamente dito.
Reação diferente aos atentados
Ora, isso é fácil de constatar quando se é questionado, por exemplo, sobre o IRA e o terrorismo: as questões dos jornalistas são muito diferentes, dependendo de que lado do mar da Irlanda exercem sua profissão. Em geral, o planeta aparece sob um outro aspecto, variando conforme se segure o chicote há muito tempo ou se tenha tomado as chicotadas durante séculos. No fundo, talvez seja por isso que o resto do mundo, mesmo se mostrando univocamente horrorizado pelo destino das vítimas, não tenha reagido da mesma maneira que nós aos atentados de Nova York e Washington.
Para compreender os acontecimentos de 11 de setembro, é preciso distinguir, por um lado, os executores do crime, e, por outro, o imenso leque de compreensão de que esse crime se beneficiou, inclusive entre os que a ele se opunham. Os executores? Supondo-se que se trate da rede de Bin Laden, ninguém sabe mais sobre a gênese desse grupo fundamentalista do que a CIA e seus asseclas: eles o incentivaram à nascença. Zbigniew Brzenzinski, diretor da Segurança Nacional do governo Carter, felicitou-se pela ‘‘armadilha’’ preparada para os soviéticos em 1978, que consistia — por meio de ataques de mujahidin (militantes islâmicos organizados, armados e treinados pela CIA) contra o regime de Cabul — em atrair os soviéticos para o território afegão, no final do ano seguinte. Somente depois de 1990 e da instalação de bases norte-americanas permanentes na Arábia Saudita, terra sagrada para o Islã, é que esses combatentes se voltaram contra os Estados Unidos.
Para tentar explicar o amplo leque de simpatia com que contam as redes de Bin Laden, no entanto, inclusive nas camadas dirigentes dos países do hemisfério Sul, é necessário partir da raiva que provoca o apoio dos Estados Unidos a todo tipo de regimes autoritários ou ditatoriais; é necessário lembrar-se da política norte-americana que destruiu a sociedade iraquiana, consolidando o regime de Saddam Hussein; é necessário não se esquecer do apoio de Washington à ocupação israelense de territórios palestinos desde 1967. No momento em que os editoriais do New York Times sugerem que ‘‘eles’’ nos detestam porque defendemos o capitalismo, a democracia, os direitos individuais, a separação entre a Igreja e o Estado, o Wall Street Journal, melhor informado, explica, após ter ouvido banqueiros e executivos não-ocidentais, que eles ‘‘nos’’ detestam porque impedimos a democracia e o desenvolvimento econômico. E demos apoio a regimes brutais, e até terroristas.
Um caso, o da Nicarágua, não deixa margem à dúvida: realmente, foi decidido de modo categórico pelo Tribunal Penal Internacional de Haia e pela ONU.
Pergunte-se a você mesmo quantas vezes esse precedente indiscutível de uma ação terrorista — à qual um Estado de direito quis responder através dos meios do direito — foi evocado pelos principais comentaristas. E, no entanto, tratava-se de um precedente ainda mais radical que os atentados de 11 de setembro: a guerra do governo Reagan contra a Nicarágua provocou 57 mil vítimas, entre as quais 29 mil mortos, e a ruína de um país, talvez de forma irreversível.
Na época, a Nicarágua reagiu. Não explodindo bombas em Washington, mas submetendo o caso ao Tribunal Penal Internacional. Este, no dia 27 de junho de 1986, decidiu categoricamente em favor das autoridades de Manágua, condenando o ‘‘uso ilegal da força’’ pelos Estados Unidos (que haviam minado os portos de Nicarágua), e determinando que Washington pusesse fim ao crime, sem esquecer de pagar vultuosas perdas e danos. Os Estados Unidos replicaram que não acatariam a sentença e que passariam a não reconhecer a jurisdição do Tribunal.
A Nicarágua pediu então ao Conselho de Segurança da ONU a aprovação de uma resolução exigindo que todos os países respeitassem o direito internacional. Não se citava nenhum em particular, mas todos compreenderam. Os Estados Unidos votaram contra a resolução. Portanto, hoje, são o único país que, simultaneamente, foi condenado pelo Tribunal Internacional de Justiça e se opôs a uma resolução exigindo... o respeito ao direito internacional. Depois, a Nicarágua dirigiu-se à Assembléia Geral da ONU. A resolução que propusera teve três votos contra: dos Estados Unidos, de Israel e de El Salvador. No ano seguinte, a Nicarágua reivindicou a votação da mesma resolução. Desta vez, só Israel defendeu a causa do governo Reagan. A essa altura, a Nicarágua não dispunha de mais nenhum meio legal. Todos haviam fracassado em um mundo regido pela força. Este precedente não dá margem a qualquer dúvida. Quantas vezes falamos sobre ele na universidade, nos jornais?
A Nicarágua, o Haiti e a Guatemala são os três países mais pobres da América Latina. Também estão entre os que os Estados Unidos intervieram militarmente. A coincidência não é necessariamente acidental. E tudo isso aconteceu num clima ideológico marcado por declarações entusiásticas dos intelectuais ocidentais. Há alguns anos, a auto-congratulação fazia o maior sucesso: fim da história, nova ordem mundial, Estado de direito, ingerência humanitária etc. Era coisa muito freqüente, enquanto deixávamos que se cometessem atrocidades em grande quantidade. Pior, contribuíamos para isso de maneira ativa. Mas quem falava a respeito? Uma das proezas da civilização ocidental é, talvez, tornar possível esse tipo de inconseqüência numa sociedade livre. Um Estado totalitário não dispõe desse dom.
Que é o terrorismo? Nos manuais militares norte-americanos, define-se como terror a utilização calculada, para fins políticos ou religiosos, da violência, da ameaça de violência, da intimidação, da coerção ou do medo. O problema de tal definição é o fato de se aplicar muito exatamente ao que os Estados Unidos chamaram de guerra de baixa intensidade, reivindicando esse gênero de prática. Aliás, em dezembro de 1987, quando a Assembléia Geral da ONU aprovou uma resolução contra o terrorismo, um país se absteve de votar, Honduras, e dois outros votaram contra, os Estados Unidos e Israel. Por que fizeram isso? Por causa de um parágrafo da resolução que indicava que não se tratava de questionar o direito dos povos de lutarem contra um regime colonialista ou contra uma ocupação militar.
Ora, na época, a África do Sul era aliada dos Estados Unidos. Além dos ataques contra seus vizinhos (Namíbia, Angola etc.), o que provocou a morte de centenas de milhares de pessoas e acarretou uma destruição avaliada em 60 bilhões de dólares, o regime racista de Pretória enfrentava, dentro do país, uma força classificada de ‘‘terrorista’’, o African National Congress (ANC). Quanto a Israel, ocupava ilegalmente territórios palestinos desde 1967, outros no Líbano desde 1978, guerreando, no sul desse país, contra uma força classificada por ele e pelos Estados Unidos de ‘‘terrorista’’, o Hezbollah. Nas análises habituais do terrorismo, tal tipo de informação ou de evocação não é comum. Para que as análises e os artigos de imprensa sejam considerados respeitáveis, é melhor, realmente, que se situem do lado bom, ou seja, o dos braços melhor armados.
No caso da Turquia, os Estados Unidos não lidaram com um ingrato. Washington lhe entregara aviões F-16 para bombardear sua própria população: ela os utilizou em 1999 para bombardear a Sérvia. Depois, alguns dias após o 11 de setembro passado, o primeiro ministro turco, Bülent Ecevit, informava que seu país participaria com entusiasmo da coalizão norte-americana contra a rede de Bin Laden. Explicou, na oportunidade, que a Turquia havia contraído para com os Estados Unidos uma dívida de gratidão que remontava à sua própria ‘‘guerra anti-terrorista’’ e ao apoio inigualável de Washington. É verdade que outros países apoiaram a guerra de Ancara contra os curdos, mas nenhum com tanto zelo e eficácia quanto os Estados Unidos. Esse apoio contou com o silêncio, ou (talvez a palavra seja mais adequada) a subserviência das classes cultas norte-americanas. Porque não ignoravam o que se passava. Afinal de contas, os Estados Unidos são um país livre; os relatórios das organizações humanitárias sobre a situação no Curdistão eram de domínio público. Portanto, na época, nós optamos por contribuir para as atrocidades.
Que seja. Mas o que fazer na situação atual? Um radical tão extremista quanto o papa sugere, diante do crime de 11 de setembro, procurar os culpados e depois submetê-los a julgamento. Porém, os Estados Unidos não querem recorrer às formas judiciais normais; preferem não apresentar prova alguma e se opõem à existência de uma jurisdição internacional. Mais ainda, quando o Haiti reivindicou a extradição de Emmanuel Constant (considerado responsável pela morte de milhares de pessoas após o golpe de Estado que depôs o presidente Jean-Bertrand Aristide, no dia 30 de setembro de 1991) e apresentou provas de sua culpa, o pedido não teve qualquer efeito em Washington. Nem sequer foi objeto de qualquer tipo de discussão.
Lutar contra o terrorismo implica reduzir o grau do terror, e não aumentá-lo. Quando o Exército Republicano Irlandês (IRA) comete um atentado em Londres, os britânicos não destroem Boston, cidade onde o IRA tem muito apoio, nem Belfast. Procuram os culpados e, na seqüência, os julgam. Uma forma de reduzir o grau de terror seria parar de contribuir para ele. Depois, refletir sobre as orientações políticas que criaram uma logística de apoio da qual, em seguida, se aproveitaram os mandantes do atentado. Nas últimas semanas, a tomada de consciência, pela opinião pública norte-americana, dos vários tipos de realidades internacionais (de cuja existência apenas as elites suspeitavam) constitui, talvez, um passo nesse sentido.
Tradução de Iraci D. Poleti
Correio Brasiliense, Brasília, 23 de dezembro de 2001
A AÇÃO CONVENIENTE DAS ONGS
não-governamentais inspiradas por modelos norte-americanos
O estudo da governança mundial representa um mercado valorizado e vantajoso para os produtores do Direito, da Economia ou de Ciência Política. Para além das suas divergências científicas ou ideológicas, esses produtores têm em comum o fato de encarar seriamente os desafios da globalização. Fazendo como se ela fosse uma realidade – a promover, a combater ou a controlar –, mobilizam recursos sociais e institucionais que contribuem para fazê-la existir, como aposta política, mas igualmente como canteiro em torno do qual se empenham os especialistas. Enquanto jogam a bola de um fórum a outro, os protagonistas têm todo interesse em não minar esse novo espaço de poder.
Mercado elitista e protegido
O mercado da avaliação internacional é elitista e protegido. Para acessá-lo, é necessário dispor de competências culturais e lingüísticas. Antes de serem reforçadas e legitimadas por cursos escolares internacionais muito dispendiosos, as tendências ao internacional são privilégio dos herdeiros de linhagens familiares cosmopolitas. Incluindo no meio certas críticas da globalização, que se inscrevem em redes internacionais muitas vezes marcadas pela influência norte-americana. Porque as grandes organizações não-governamentais (ONGs) multinacionais recrutam jovens profissionais entre os melhores diplomados dos campi do Ivy League, nos Estados Unidos. Ora, o acesso a essas escolas de elite – cujo custo pode exceder 40 mil dólares por ano (98.480 reais) – é reservado essencialmente aos herdeiros de um establishment liberal, que – “noblesse oblige” – sempre cultivou certa forma de idealismo e universalismo.
Assim, Benjamin Heineman, formado em Harvard, Oxford e Yale, começa o seu percurso profissional dedicando seus três primeiros anos a um gabinete jurídico de interesse público financiado pela fundação Ford. Isso o conduz a importantes funções na administração Carter, antes de se tornar (onde ficou por dezessete anos) diretor jurídico da General Electric, principal multinacional do planeta. Atualmente é vice-presidente. Exemplar, este perfil atribui a ele uma forte legitimidade no mundo profissional e patronal, ao qual ele se engaja em prol da deontologia e maior responsabilidade social.
Herança colonial
As características da nova geração dos ativistas da globalização valem, principalmente, para seus predecessores. A facilidade cultural e lingüística, freqüentemente cultivada desde mais a jovem idade em estabelecimentos escolares elitistas, como as escolas bilíngües (particularmente nos países em desenvolvimento), serve de passaporte para o acesso à formação universitária estrangeira, cujo custo, assumido em grande parte pelas famílias, reforça o efeito de seleção social.
Essa formação no estrangeiro das elites nacionais dos países dependentes constitui uma herança do modelo colonial trazido pelo novo imperialismo. Os Estados Unidos impuseram sua hegemonia por meio de investimentos educativos, que remodelaram os cursos universitários dos futuros responsáveis governamentais sobre economia e ciência política. Os grandes campi privados do Ivy League servem assim de lugar preferencial à constituição das novas elites, tanto nacionais como internacionais. Compensando a maior concorrência no ensino superior nacional, ligada ao afluxo de estudantes, as formações remotas e dispendiosas permitiram as diferentes burguesias de Estado privilegiar os seus herdeiros, reservando-lhes, de fato, o acesso aos diplomas estrangeiros prestigiosos. Essa estratégia, comum às elites de numerosos países, contribuiu para "a unificação do campo mundial da formação dos líderes".
Por meio da denúncia das velhas ideologias coloniais em benefício de novos universais – o desenvolvimento, o mercado, o Estado de Direito –, a potência hegemônica americana deu um golpe duplo. Desqualificou as redes de influência que asseguravam a perenidade do modelo neocolonial europeu, reorientando ao mesmo tempo para os seus próprios campi os circuitos internacionais de formação das elites periféricas. Por conseqüência, a fuga dos cérebros para os mercados profissionais mais remuneradores.
Jogo duplo
Os dois espaços do nacional e do internacional são perfeitamente encaixados nas estratégias de reprodução das elites. No mercado da avaliação internacional, os operadores dominantes são os que podem mobilizar títulos e diplomas autenticados por seus Estados de origem. No inverso, um capital internacional de competências e de relações representa uma vantagem não negligenciável nas estratégias nacionais de poder. Ser um antigo aluno da ENA [Escola Nacional de Administração] ou politécnico não prejudica certamente uma carreira posterior nas instituições internacionais; ser diplomado em Harvard não impede de forma alguma de se tornar ministro em Paris. Um pequeno grupo de privilegiados pode simultaneamente fazer valer a sua notoriedade nacional para ser ouvido na cena internacional e investir no internacional para reforçar as suas posições no campo do poder nacional. Neste último caso, basta explicar que eles poderão, assim, melhor promover os interesses do país na concorrência mundial.
Tais estratégias de jogo duplo valem, principalmente, para as grandes instituições filantrópicas privadas – como as fundações Ford, Rockefeller, Soros – que se encontram doravante na vanguarda da globalização "humanizada". Ao mesmo tempo que financiavam o desenvolvimento internacional das grandes ONGs que militam para os direitos da pessoa ou para a defesa do meio ambiente, contribuíam para a propagação internacional dos campi que produzem e que difundem a nova ortodoxia liberal: mais da metade dos presidentes de bancos centrais são diplomados em economia geralmente nas grandes universidades americanas; mais de um terço são antigos membros do Fundo Monetário Internacional (FMI) ou do Banco Mundial. A globalização valoriza, assim, um espaço da "governança" internacional cujas instituições e práticas se inspiram no modelo norte-americano.
Paradoxalmente, as divisões no império fazem a sua diferença. A astúcia da razão imperial é que ela exporta suas lutas internas: mesmo a contestação do modelo americano se inspira nas análises (multiculturalismo, mestiçagem) e nos métodos de luta (invocação da "sociedade civil" e recurso à mídia) correntes nos Estados Unidos. Para neutralizar os que justificam suas políticas conservadoras apoiando-se nas "internacionais do establishment" (FMI, Banco Mundial etc.), seus adversários extraem de dentro dessa armadura modelos alternativos que circulam através da rede das ONGs. Assim, tanto no centro como na periferia da nova ordem mundial as lutas internas alimentam e se alimentam da dinâmica da importação cultural. Concorrentes tanto quanto complementares nos seus efeitos hegemônicos.
Imposição de prioridades
Graças ao recrutamento nos campi das elites, ao apoio financeiro das fundações filantrópicas e aos numerosos intermediários que dispõem (no campo universitário mas também o das instituições internacionais), as ONGs baseadas em Washington podem elaborar mais facilmente estratégias e modelos que correspondem aos novos desafios políticos ou científicos. Elas estão muito preocupadas em difundir essas análises, pois esperam, em troca, uma mobilização da opinião internacional para aumentar a sua influência em Washington. Para as organizações militantes dos países dominados o problema é diferente. A fraqueza dos próprios recursos as leva a recorrer ao mercado internacional da filantropia... que lhes impõe, em troca, suas palavras de ordem e os seus modelos, senão os seus modos.
Na sua tese sobre “O mercado internacional da solidariedade”, Benjamin Buclet detalha toda a ambigüidade da "parceria" entre as grandes ONGs internacionais e as pequenas estruturas que intervêm no âmbito local. A fim de financiar sua ação militante, estas últimas devem se inscrever numa lógica de projeto, negociado com financiadores de fundos internacionais. A concorrência entre projetos assegura a influência desses gestores financeiros, tanto sobre a definição "das populações-alvo" como sobre os objetivos e os critérios de avaliações. Além disso, as prioridades desses gestores são substituídas pelas das grandes ONGs, bem introduzidas na cena internacional – o que lhes permite preencher, de fato, um papel de holding no que diz respeito às suas redes de pequenas ONGs locais, que não dispõem dos recursos sociais que permitem acesso direto aos financiamentos internacionais. Esse dispositivo cria um curto-circuito entre os governos nacionais e os notáveis locais, mas permite à "sociedade civil internacional" assegurar a divulgação dos seus valores e das suas prioridades, definir quais são as necessidades de desenvolvimento ou as expectativas de democracia.
Emigração de militantes
Denunciando os adeptos do monetarismo que impuseram os seus discípulos – e a sua disciplina – na chefia das instituições financeiras nacionais dos países em desenvolvimento, os agentes do "mercado mundial da solidariedade" prolongam em âmbito local a empresa de reestruturação política nos Estados da periferia. Quando eles se esforçam em construir sua credibilidade sobre o assunto, os responsáveis dessas pequenas ONGs não escapam à lógica do clientelismo. Porta-vozes – mas também "padrinhos" – de populações muito dependentes, eles são levados a concorrer com os notáveis que dispunham até então de um quase monopólio sobre o poder político local.
Às vezes, os lucros obtidos pelos militantes na cena internacional são bem pagos no plano local porque, incentivados a utilizar os métodos de ação estimados pelos países democráticos e as ONGs (reuniões pacíficas, exposição dos líderes mais carismáticos do movimento), eles se defrontam com poderes que não recuam na frente da violência. O que corresponde melhor aos canhões do protesto ocidental, mediatização incluída, não é necessariamente o que impressiona mais nos regimes cuja potência das forças de repressão e o equilíbrio dos poderes não são nem os de Estocolmo nem os de Washington.
Confrontados com uma luta tão incerta quanto desigual, alguns desses militantes podem estar tentados a fugir para as grandes cenas da globalização, onde, graças aos recursos postos à sua disposição, têm a impressão que os seus engajamentos são não apenas menos arriscados, mas também mais eficazes. Assim, entre os militantes chilenos que foram os pioneiros dos direitos da pessoa sob a ditadura de Pinochet, vários, entre os melhores, emigraram para se encontrar na primeira fila da cena internacional. Alguns o fizeram porque eram perseguidos ou expulsos, como o professor de direito Jose Zalaquett, que se juntou à Anistia Internacional em 1976, antes de assumir três anos mais tarde sua presidência.
Mas, para a maior parte, sua partida coincide com o declínio das ONGs chilenas, após a vitória da coalizão democrática. Porque a nova equipe governamental recorre a eles para beneficiar sua legitimidade: Roberto Garreton, responsável pelo comitê jurídico de defesa das vítimas da ditadura, criado no seio do arcebispado, é, por exemplo, nomeado embaixador dos direitos do homem, antes de prosseguir sua carreira na ONU como relator especial dos direitos humanos, especialmente no Zaire. Em termos mais gerais, quando o Chile pára de ser destaque nas grandes mídias, os financiamentos das ONGs se esgotam, ainda que as camadas mais desfavorecidas da população chilena continuam a ser vítimas de violências policiais. Para prosseguir com seu compromisso, certos militantes escolhem então emigrar, como José Vivenco, que foi para Washington, onde fica um dos principais porta-vozes da America's Watch.
Inspiração americana
A internacionalização das lutas nacionais pelas quais se constrói o embrião de uma sociedade civil mundial contribui, por conseguinte, para impor como universais estratégias um savoir faire inspirado pela dinâmica da política americana. A vitória de Ronald Reagan já tinha produzido efeitos paradoxais, principalmente favorecendo a universalização dos "direitos do homem". Para construir uma espécie de reação contra o embargo da direita às instituições de Estado, a fração reformista, freqüentemente democrata, do Foreign Policy Establishment se apoiou nos recursos de instituições privadas que ela tinha fundado e cujo controle conservava. Preocupada em incentivar o desenvolvimento de uma "sociedade civil" capaz de desempenhar um papel de contra-poder, invocava contra os falcões os quais se cercava Ronald Reagan, uma moral universal dos direitos da pessoa.
As fundações filantrópicas desempenharam um papel de reguladores da mobilização cívica. Na área de meio ambiente, por exemplo, fazendo cintilar suas subvenções e mobilizando suas redes científicas, a Fundação Ford acelerou a reconversão de movimentos contestadores ao redor de temáticas "responsáveis". Por exemplo, fez pressão sobre os responsáveis pelo Environment Defense Fund (FED), de modo que abandonassem uma estratégia de confrontação que se apoiava sobre a tribuna judicial para mobilizar a opinião: "Sue the bastards" (Levem os canalhas à justiça), de acordo com a fórmula favorita do inventor desta diligência.
Capitalismo filantrópico
Alegando que a responsabilidade civil como financiadores de fundos estava comprometida, os financeiros da Fundação Ford impuseram uma pré-seleção dos processos por grandes notáveis da advocacia. Simultaneamente, a fundação incentivou a negociação dos ecologistas com os industriais. Primeiro, financiando os trabalhos de uma equipe de economistas da Electricité de France, que demonstraram que a proteção do meio ambiente não representava apenas um custo, mas uma fonte de lucros potenciais para as empresas.
Em seguida, fazendo pressão sobre os múltiplos pequenos grupos de ativistas para que se agrupassem em estruturas unificadas ao redor de estados maiores profissionais, capazes de negociar com base numa avaliação científica reconhecida. As grandes ONGs que doravante passaram a dominar a cena internacional da defesa do meio ambiente – modernizado sob a denominação de "mercado do desenvolvimento sustentável" – são o instrumento desta contra-ofensiva inscrita na grande tradição reformista do capitalismo filantrópico americano, inventado pelos "barões ladrões".
Pierre Bourdieu o recordava: "A referência ao universal é a arma por excelência". O imperialismo sabe avançar sob o estandarte dos direitos do homem e da (boa) governança. Brincando de parceria com as ONGs, as multinacionais não têm mais que se apresentar como as campeãs do "desenvolvimento (de um capitalismo) sustentável".
Edição brasileira ano 6 número 65
Yves Dezalay e Bryant Garth *
(Trad.: Marcelo de Valécio)
terça-feira, 3 de agosto de 2010
PARCERIA E JEITINHO EM TERRAS AFRICANAS
Cresce a presença brasileira na África, onde as carências se confundem com oportunidades de negócio
Brasil e África estão deixando de ter em comum apenas a afinidade étnica, um enraizado amor pela música e o compartilhamento de um legado escravagista que nada tem de glorioso. Neste começo de século 21, brasileiros e africanos residentes ao sul do Saara estão se tornando também importantes parceiros comerciais.
Há anos, o volume de negócios entre o Brasil e alguns países africanos – especialmente Angola e África do Sul – vem crescendo tanto que esse mercado é hoje o quarto mais importante para produtos brasileiros, principalmente industrializados. Máquinas, automóveis, artigos de informática, eletrodomésticos, alimentos enlatados compõem 80% de nossa pauta de exportações para aquele continente.
As vendas para o Brasil, por sua vez, também vêm aumentando, e as enormes quantidades de petróleo nigeriano que chegam todos os anos aos portos brasileiros são as responsáveis pelo pequeno superávit em favor do continente africano.
No total, o volume de negócios envolvido nessa corrente de comércio saltou de US$ 3,5 bilhões em 1997 para espantosos US$ 15,6 bilhões em 2006, ano em que US$ 7,4 bilhões em mercadorias saíram do Brasil para o outro lado do Atlântico. Em 2007, foram US$ 8,5 bilhões – valor oito vezes maior do que o do começo dos anos 1990, quando as vendas para a África não passavam de US$ 1 bilhão, e quatro vezes o de 2001, quando as exportações somaram cerca de US$ 2 bilhões.
"O mercado africano é carente de produtos industrializados, já que as fábricas estão concentradas na África do Sul, país responsável pela metade da produção industrial e por quase 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do continente", diz Adalberto Camargo Jr., secretário-geral da Câmara de Comércio Afro-Brasileira, sediada em São Paulo. "Se o Brasil souber aproveitar o espaço que já conquistou e detectar novas oportunidades, poderá vir a desempenhar um papel fundamental na economia da região."
De acordo com Camargo, em alguns países isso já está acontecendo. Em 2006, Angola adquiriu de empresas brasileiras o equivalente a US$ 836 milhões, uma elevação de 60% na comparação com 2005. Já as vendas para o Congo aumentaram 15 vezes desde 2002. Para a própria África do Sul, o crescimento das exportações foi de 205%, e para a Guiné Equatorial, somente entre 2006 e 2007, de 220%.
Construtoras
Diga-se que não são apenas as indústrias que estão marcando presença no mercado de consumo africano. Também mal servida de infra-estrutura, a África está se tornando, igualmente, um paraíso para as construtoras brasileiras – como Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, que na verdade estão presentes na região desde o começo dos anos 1970, quando eram uma espécie de ponta-de-lança econômica da diplomacia terceiro-mundista do regime militar, abandonada depois pelos governos civis. Nos últimos anos, essas empresas expandiram de maneira significativa suas operações no continente.
Angola, por exemplo, já representa para a Odebrecht um faturamento anual de US$ 900 milhões, advindos de setores como estradas, portos, diamantes e mercado imobiliário. A empresa ergueu o primeiro shopping center do país, localizado na capital, Luanda. Já a Camargo Corrêa vai construir a maior usina hidrelétrica do continente, para abastecer a África do Sul, e está igualmente bem instalada em Angola e Moçambique. A construtora prepara-se agora para operar na Namíbia, no Zimbábue e em Botsuana, e deverá destinar US$ 60 milhões nos próximos dois anos à consolidação dos vários mercados em que atua. Por sua vez, a Andrade Gutierrez está presente em países como Angola, Guiné Equatorial e Camarões, e pretende estender as atividades à República do Congo. Desde 2004, a empresa já investiu US$ 52 milhões na região.
Petróleo e mineração são outras duas áreas hoje com forte presença brasileira. Especializada na exploração petrolífera em águas profundas, a Petrobras está desenvolvendo projetos em quase uma dezena de países africanos, como Angola, Nigéria e Tanzânia. Desde o final da década de 1990, os investimentos da empresa naquele continente ultrapassaram US$ 2 bilhões, e até 2012 serão mais US$ 1,4 bilhão.
De seu lado, a companhia Vale participa de projetos de mineração em Angola, Moçambique, África do Sul, Gabão, Congo e Guiné. Uma das maiores apostas da mineradora brasileira é a gigantesca mina de carvão de Moatize, em Moçambique – em breve, a empresa deverá implantar um terminal para exportação.
E não é apenas o mercado constituído por essa infra-estrutura de cunho mais tradicional que está sendo ocupado pelos brasileiros. Uma equipe da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) está, por exemplo, simplesmente montando o Banco Central de Angola. E coube a uma empresa de Belo Horizonte, a Mysky Tecnologia, informatizar os sistemas de controle de companhias aéreas de Angola, Cabo Verde, Nigéria e Congo.
"Os africanos se encantaram com o nosso software, que é capaz de gerenciar com simplicidade e baixo custo desde os cronogramas de vôo e a venda de passagens até o check-in de aeronaves", afirma Fernanda Correia Franco, gerente administrativa e financeira da companhia.
A Mysky também presta consultoria e assistência técnica às companhias aéreas que compraram seu produto naquele continente. Aliás, o pessoal da empresa faz parte da crescente legião de brasileiros que hoje vão a trabalho ou mesmo vivem nos países africanos, principalmente nos de língua portuguesa, atraídos pelos salários generosos e oportunidades de negócios. Eles já somariam 20 mil apenas em Angola.
Opção
Ainda que as companhias brasileiras tenham sempre preferido investir nos mercados bem mais consolidados das Américas e da Europa, e mais recentemente na afluente China, não é difícil entender o porquê desse repentino interesse pelo continente africano. Está no cerne dessa ofensiva o desejo – cada vez mais explícito – de reverter uma histórica dificuldade do Brasil para vender, no mercado internacional, alguma coisa além de grãos, minérios e artigos industriais semi-acabados ou de baixo conteúdo tecnológico, que ainda perfazem três quartos das exportações nacionais.
A "cartada africana" é uma tentativa brasileira, sem dúvida atrevida, mas que está se mostrando eficaz, de adensar seu portfólio e se afirmar, no mundo globalizado, como um player econômico mais qualificado e de maior peso específico, posição que ocupa hoje apenas em relação a seus vizinhos do Mercosul. Apesar de estar entre as dez maiores economias do planeta, o Brasil participa com somente 1% do comércio mundial, e a sua imagem internacional é ainda a de um mero exportador de bens primários.
Muitos empresários brasileiros perceberam que está na África a oportunidade, tantas vezes negada, de finalmente desembarcar no mercado externo, sem enfrentar tantas barreiras tarifárias ou mesmo políticas, os produtos de maior conteúdo tecnológico que fabricam (de qualquer forma, não muito numerosos), assim como serviços de engenharia civil e de mineração, estes sim tidos como dentre os melhores do mundo, porém historicamente tolhidos quase em toda parte pelos fortes e capitalizados concorrentes europeus, americanos e asiáticos.
"A África é, sem dúvida, um mercado bastante promissor", atesta Nelson Delduque, diretor de mercado externo da poderosa Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). "Não é nem de longe um mercado virgem – a Alemanha exporta muita máquina para a África do Sul, por exemplo, e a China também começa a se fazer mais presente nesse segmento. Mas ali, pelo menos, temos espaço para concorrer em igualdade de condições."
Laptops
O curioso é que coube aos próprios países desenvolvidos e à China abrir a fresta por onde os brasileiros agora estão entrando. Pelo menos desde a virada dos anos 2000, quando ficou claro que a Guerra Fria já era mesmo coisa do passado, a África subsaariana deixou de ser considerada somente um território devorado pelo subdesenvolvimento crônico, miséria, genocídio, corrupção e sem nenhuma esperança de futuro.
Esses anjos do apocalipse estão ainda presentes na África, é claro – basta lembrar a feroz conflagração tribal que arrasou, no começo deste ano, o até então próspero Quênia, e as lutas intermináveis em Serra Leoa, no Sudão e na Somália –, mas hoje quem se destaca na paisagem africana, seja urbana ou rural, são os executivos munidos de celular e laptop, vindos quase sempre das partes mais ricas do planeta.
"Muitos países africanos estão forrados de petróleo e de minérios, e o crescimento da procura internacional por esses produtos, que fez seus preços dispararem, atraiu para o continente os investimentos externos", explica Cláudio Oliveira Ribeiro, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisador do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (Caeni) da USP. "A África está experimentando seu melhor período de expansão econômica desde o fim do período colonial, nos anos 1960 e 70."
De fato, há hoje pouquíssimos lugares no mundo onde a economia esteja crescendo com tamanha velocidade como na África – a média do continente foi de 6,1% em 2007, com previsão de 7% para 2008. Na América Latina, o índice no ano passado foi de 5,2%. Angola, que literalmente nada em petróleo, apresentou uma expansão de 23% no PIB no ano passado, e calcula-se que haverá duplicação até 2010, passando dos atuais US$ 53 bilhões para mais de US$ 100 bilhões.
Estados Unidos, França – país que dividiu com a Grã-Bretanha boa parte do território da África durante o período colonial, cuja fase africana começou no último quarto do século 19 – e China estão sendo os motores da atual expansão da economia do continente. Mas é a nova e milenar potência do Extremo Oriente que vem fazendo as apostas mais altas, até por sua premente necessidade de petróleo e minérios.
A África já se tornou, sem dúvida, um dos pilares da babélica economia chinesa, do que dá conta o crescimento do fluxo comercial entre as duas regiões: foi de US$ 50 bilhões em 2006, volume cinco vezes maior do que no ano 2000. O interesse da China no continente é tão grande que o esforço de seus empresários está sendo cada vez mais reforçado pelo dos diplomatas.
Uma cúpula sino-africana realizada na China em 2006 reuniu, por exemplo, nada menos do que 54 chefes de Estado africanos. As linhas de crédito chinesas para o continente já superam os US$ 50 bilhões (incluindo os US$ 4 bilhões para Angola concedidos logo nos primeiros contatos entre os dois países). Construtoras chinesas ergueram a sede do Ministério do Exterior na Nigéria, por um custo 30% menor e em dois terços do prazo previsto, e depois de pronto o prédio avisaram, com um sorriso nos lábios, que a construção não tinha custado nada, era um presente chinês para os nigerianos.
Nesse quesito, entretanto, os chineses estão encontrando no Brasil um rival de respeito. O atual governo brasileiro está sendo também bastante proativo na ajuda aos empresários nacionais em sua aventura africana.
Viagens
Revertendo o maldisfarçado desinteresse do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) por aquele continente – FHC sempre demonstrou preferência por inserir melhor o Brasil nos mercados do mundo desenvolvido e do Mercosul, aliás, uma política comum aos presidentes brasileiros desde o fim do ciclo militar –, o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, não tem poupado energia para fazer da África um mercado de ponta para o país.
Sabedor da importância que têm, para os países africanos, visitas de chefes de Estado estrangeiros para a posterior abertura de negócios – e consciente também do que significam essas viagens para a ceva de certas ambições políticas brasileiras, como a de conquistar um assento no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) –, Lula já visitou nada menos que 19 países da região desde que assumiu a presidência. O número de embaixadas no continente aumentou de 16, em 2003, para mais de 40, e as missões diplomáticas em Brasília, igualmente 16 naquela época, já eram 24 no final do ano passado.
Mais revelador ainda do papel do governo de Lula são os generosos subsídios brasileiros fornecidos aos países da África de língua portuguesa, como Angola e Moçambique. O Brasil abriu uma linha de crédito de US$ 1 bilhão para o governo de Angola e perdoou quase toda a dívida de Moçambique contraída com o país: US$ 315 milhões, de um total de US$ 330 milhões.
Não é à toa que as empresas brasileiras domiciliadas em Angola (quase todas elas conectadas com a construção civil ou de serviços de informática e fast food) já respondam por cerca de 10% do PIB angolano, e o mercado africano como um todo represente hoje 10% da pauta comercial do Brasil – o mesmo patamar dos anos 1970, e mais que o dobro do que vigorou de 1985 a 2003.
"O governo brasileiro está realmente olhando de novo para a África", diz o secretário de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Welber Barral. "As ações não têm sido apenas diplomáticas. O MDIC e vários outros órgãos vêm também realizando um intenso trabalho de prospecção e divulgação comercial do Brasil no continente, e o ministério até já lançou linhas de crédito para aqueles que quiserem exportar para lá." Uma delas, segundo Barral, prevê a liberação de R$ 2 milhões para empresas brasileiras interessadas em fechar parcerias comerciais na África.
Há também um fator nada desprezível que vem jogando a favor dos brasileiros em suas incursões no continente africano: em Angola e Moçambique, além de alguns outros pequenos países como Cabo Verde, fala-se o português, e a identificação étnica e cultural com o Brasil facilita bastante as coisas. As novelas e as músicas brasileiras fazem sucesso absoluto em Angola, por exemplo: o cantor e compositor Martinho da Vila é, ali, quase visto como um deus.
Os produtos brasileiros também são envolvidos por essa boa imagem nos territórios de língua portuguesa, e mesmo nos de outros idiomas. O Brasil tende a ser considerado como um irmão mais velho bem-sucedido, e não como um pai ou tio paternalista, como até Portugal não deixa um pouco de parecer perante os angolanos e moçambicanos – e na África tão recentemente descolonizada, a desconfiança em relação aos "brancos colonialistas" é, compreensivelmente, ainda muito grande.
O velho "jeitinho brasileiro" também vem cumprindo sua parte – principalmente, outra vez, nos países de língua portuguesa. Bem mais maleáveis para os negócios do que europeus, asiáticos e americanos, e mais acostumados com as arbitrariedades da burocracia e – é preciso dizer logo – com a corrupção, ainda bastante presente na África, os empresários brasileiros sabem se virar bem no algo pedregoso terreno empresarial africano.
Questão de fôlego
"Praticamente todas as companhias que exportam continuamente para Angola, por exemplo, o fazem através de parcerias com empresas portuguesas ou do próprio país", diz Alexandre Moura, diretor da Light Infocon, empresa paraibana da área de tecnologia da informação e que há anos faz negócios com o país em associação com portugueses. "Ninguém vai às cegas."
O principal desafio do Brasil para aumentar a participação no mercado africano está em conseguir manter o fôlego atual, e isso não será fácil. Nas ex-colônias britânicas e francesas, empresas dessas antigas metrópoles – secundadas pelas dos seus primos da União Européia e dos Estados Unidos – começam a entabular um pequeno negócio atrás do outro e a fechar os espaços. A China, cujo apetite está, por enquanto, mais voltado para o petróleo, o carvão e o ferro, também logo deverá diversificar o cardápio. São todos países com um bolso muito mais fundo do que o do Brasil e, por isso, capazes de agir de maneira mais lenta e estratégica do que a maior potência latino-americana.
E dinheiro e paciência são fundamentais para participar da economia africana. Abrir um canal de negócios no continente equivale a gastar uma pequena fortuna. Angola, por exemplo, é um dos países com um dos custos de vida mais altos do mundo, e onde a população tem enorme dificuldade até para comprar alimentos – aliás, esse é um cenário que se repete por quase toda a África subsaariana, apesar dos bons índices de crescimento.
Em Luanda, que oficialmente tem hoje no máximo 300 mil habitantes, mas onde o próprio governo trabalha com uma estimativa muito acima de 1 milhão, o bitoque – prato típico composto de arroz, salada de alface e tomate, ovo frito e bife – custa em média US$ 50.
A infra-estrutura do país é terrível até para os padrões brasileiros. Praticamente não há estradas e avenidas em bom estado e, na capital, um trajeto de 10 quilômetros, feito de táxi, pode levar cerca de uma hora e meia e custar US$ 80. A energia elétrica é intermitente, e o serviço telefônico, perto do pavoroso. E os preços dos hotéis chegam a desanimar, de tão altos. Estima-se que uma empresa que queira implantar-se em Luanda vá gastar pelo menos algo entre US$ 400 mil e US$ 500 mil para isso, se quiser se ver livre desses gaps fatais para os negócios.
"Mas, no final das contas, o esforço vale a pena", garante Aldo Dórea Mattos, consultor de engenharia que há anos ajuda a desenvolver grandes projetos viários naquele continente. "Vi miséria em praticamente todos os lugares, tudo é um pouco caótico e a formação profissional dos africanos é incipiente, para dizer o mínimo. Mas hoje existe uma vontade enorme de progredir, e se os brasileiros participarem dessa epopéia certamente não se arrependerão."
Alberto Maeakdiye
Revista Problemas Brasileiros,
nº 387 - mai/jun 2008
"PELO AMOR DE DEUS, PAREM DE AJUDAR A ÁFRICA!"
Especialista explica que a ajuda internacional alimenta a corrupção e impede que a economia se desenvolva, o que destrói a produção agrícola e causa desemprego, mais miséria e mais dependência
O especialista em economia James Shikwati, 35, do Quênia, diz que a ajuda à África é mais prejudicial que benéfica. O entusiástico defensor da globalização falou com a SPIEGEL sobre os efeitos desastrosos da política de desenvolvimento ocidental na África, sobre governantes corruptos e a tendência a exagerar o problema da Aids.
DER SPIEGEL - Senhor Shikwati, a cúpula do G8 em Gleneagles deverá aumentar a ajuda ao desenvolvimento da África...
James Shikwati - Pelo amor de Deus, parem com isso!
DS - Parar? Os países industrializados do Ocidente querem eliminar a fome e a pobreza.
Shikwati - Essas intenções estão prejudicando nosso continente nos últimos 40 anos. Se os países industrializados realmente querem ajudar os africanos, deveriam finalmente cancelar essa terrível ajuda. Os países que receberam mais ajuda ao desenvolvimento também são os que estão em pior situação. Apesar dos bilhões que foram despejados na África, o continente continua pobre.
DS - O senhor tem uma explicação para esse paradoxo?
Shikwati - Burocracias enormes são financiadas (com o dinheiro da ajuda), a corrupção e a complacência são promovidas, os africanos aprendem a ser mendigos, e não independentes. Além disso, a ajuda ao desenvolvimento enfraquece os mercados locais em toda parte e mina o espírito empreendedor de que tanto precisamos. Por mais absurdo que possa parecer, a ajuda ao desenvolvimento é uma das causas dos problemas da África. Se o Ocidente cancelasse esses pagamentos, os africanos comuns nem sequer perceberiam. Somente os funcionários públicos seriam duramente atingidos. E é por isso que eles afirmam que o mundo pararia de girar sem essa ajuda ao desenvolvimento.
DS - Mesmo em um país como o Quênia pessoas morrem de fome todos os anos. Alguém precisa ajudá-las.
Shikwati - Mas são os próprios quenianos quem deveria ajudar essas pessoas. Quando há uma seca em uma região do Quênia, nossos políticos corruptos imediatamente pedem mais ajuda. O pedido chega ao Programa Mundial de Alimentação da ONU --que é uma agência maciça de "apparatchiks" que estão na situação absurda de, por um lado, dedicar-se à luta contra a fome, e por outro enfrentar o desemprego onde a fome é eliminada. É muito natural que eles aceitem de bom grado o pedido de mais ajuda. E não é raro que peçam um pouco mais de dinheiro do que o governo africano solicitou originalmente. Então eles enviam esse pedido a seu quartel-general, e em pouco tempo milhares de toneladas de milho são embarcadas para a África...
DS - Milho que vem predominantemente de agricultores europeus e americanos altamente subsidiados...
Shikwati - ... e em algum momento esse milho acaba no porto de Mombasa. Uma parte do milho em geral vai diretamente para as mãos de políticos inescrupulosos, que então o distribuem em sua própria tribo para ajudar sua próxima campanha eleitoral. Outra parte da carga termina no mercado negro, onde o milho é vendido a preços extremamente baixos. Os agricultores locais também podem guardar seus arados; ninguém consegue concorrer com o programa de alimentação da ONU. E como os agricultores cedem diante dessa pressão o Quênia não terá reservas a que recorrer se houver uma fome no próximo ano. É um ciclo simples mas fatal.
DS - Se o Programa Mundial de Alimentação não fizesse nada, as pessoas morreriam de fome.
Shikwati - Eu não acredito nisso. Nesse caso, os quenianos, para variar, seriam obrigados a iniciar relações comerciais com Uganda ou Tanzânia, e comprar alimento deles. Esse tipo de comércio é vital para a África. Ele nos obrigaria a melhorar nossa infra-estrutura, enquanto tornaria mais permeáveis as fronteiras nacionais --traçadas pelos europeus, aliás. Também nos obrigaria a estabelecer leis favorecendo a economia de mercado.
DS - A África seria realmente capaz de solucionar esses problemas por conta própria?
Shikwati - É claro. A fome não deveria ser um problema na maioria dos países ao sul do Saara. Além disso, existem vastos recursos naturais: petróleo, ouro, diamantes. A África é sempre retratada como um continente de sofrimento, mas a maior parte dos números é enormemente exagerada. Nos países industrializados existe a sensação de que a África naufragaria sem a ajuda ao desenvolvimento. Mas, acredite-me, a África já existia antes de vocês europeus aparecerem. E não fizemos tudo isso com pobreza.
DS - Mas naquela época não existia a Aids.
Shikwati - Se acreditássemos em todos os relatórios horripilantes, todos os quenianos deveriam estar mortos hoje. Mas agora os testes estão sendo realizados em toda parte, e acontece que os números foram enormemente exagerados. Não são 3 milhões de quenianos que estão infectados. De repente eram apenas cerca de um milhão. A malária é um problema equivalente, mas as pessoas raramente falam disso.
DS - E por quê?
Shikwati - A Aids é um grande negócio, talvez o maior negócio da África. Não há nada capaz de gerar tanto dinheiro de ajuda quanto números chocantes sobre a Aids. A Aids é uma doença política aqui, e deveríamos ser muito céticos.
DS - Os americanos e europeus têm fundos congelados já prometidos para o Quênia. O país é corrupto demais, segundo eles.
Shikwati - Temo, porém, que esse dinheiro ainda será transferido em breve. Afinal, ele tem de ir para algum lugar. Infelizmente, a necessidade devastadora dos europeus de fazer o bem não pode mais ser contida pela razão. Não faz qualquer sentido que logo depois da eleição do novo governo queniano --uma mudança de liderança que pôs fim à ditadura de Daniel Arap Mois--, de repente as torneiras se abriram e o dinheiro verteu para o país.
DS - Mas essa ajuda geralmente se destina a objetivos específicos.
Shikwati - Isso não muda nada. Milhões de dólares destinados ao combate à Aids ainda estão guardados em contas bancárias no Quênia e não foram gastos. Nossos políticos ficaram repletos de dinheiro, e tentam desviar o máximo possível. O falecido tirano da República Centro Africana, Jean Bedel Bokassa, resumiu cinicamente tudo isso dizendo: "O governo francês paga por tudo em nosso país. Nós pedimos dinheiro aos franceses, o recebemos e então o gastamos".
DS - No Ocidente há muitos cidadãos compassivos que querem ajudar a África. Todo ano eles doam dinheiro e mandam roupas usadas em sacolas...
Shikwati - ... e então inundam nossos mercados com essas coisas. Nós podemos comprar barato essas roupas doadas nos chamados mercados Mitumba. Há alemães que gastam alguns dólares para comprar agasalhos usados do Bayern Munich ou do Werder Bremen. Em outras palavras, roupas que algum garoto alemão mandou para a África por uma boa causa. Depois de comprar esses agasalhos, eles os leiloam na eBay e os mandam de volta à Alemanha -- pelo triplo do preço. Isso é loucura!
DS - ... e esperamos que seja uma exceção.
Shikwati - Por que recebemos essas montanhas de roupas? Ninguém passa frio aqui. Em vez disso, nossos costureiros perdem seu ganha-pão. Eles estão na mesma situação que nossos agricultores. Ninguém no mundo de baixos salários da África pode ser eficiente o bastante para acompanhar o ritmo de produtos doados. Em 1997 havia 137 mil trabalhadores empregados na indústria têxtil da Nigéria. Em 2003 o número tinha caído para 57 mil. Os resultados são iguais em todas as outras regiões onde o excesso de ajuda e os frágeis mercados africanos entram em colisão.
DS - Depois da Segunda Guerra Mundial a Alemanha só conseguiu se reerguer porque os americanos despejaram dinheiro no país através do Plano Marshall. Isso não se qualificaria como uma ajuda ao desenvolvimento bem-sucedida?
Shikwati - No caso da Alemanha, somente a infra-estrutura destruída tinha de ser reparada. Apesar da crise econômica da República de Weimar, a Alemanha era um país altamente industrializado antes da guerra. Os prejuízos criados pelo tsunami na Tailândia também podem ser consertados com um pouco de dinheiro e alguma ajuda à reconstrução. A África, porém, precisa dar os primeiros passos na modernidade por conta própria. Deve haver uma mudança de mentalidade. Temos de parar de nos considerar mendigos. Hoje em dia os africanos só se vêem como vítimas. Por outro lado, ninguém pode realmente imaginar um africano como um homem de negócios. Para mudar a situação atual, seria útil se as organizações de ajuda saíssem.
DS - Se fizessem isso, muitos empregos seriam perdidos imediatamente.
Shikwati - Empregos que foram criados artificialmente, para começar, e que distorcem a realidade. Os empregos nas organizações estrangeiras de ajuda são muito apreciados, é claro, e elas podem ser muito seletivas na escolha das melhores pessoas. Quando uma organização de ajuda precisa de um motorista, dezenas de pessoas se candidatam. E como é inaceitável que o motorista só fale sua língua tribal, o candidato também deve falar inglês fluentemente --e, de preferência, ter boas maneiras. Então você acaba com um bioquímico africano dirigindo o carro de um funcionário da ajuda, distribuindo comida européia e forçando os agricultores locais a deixar seu trabalho. É simplesmente loucura!
DS - O governo alemão se orgulha exatamente de monitorar os receptores de suas verbas.
Shikwati - E qual é o resultado? Um desastre. O governo alemão jogou dinheiro diretamente para o presidente de Ruanda, Paul Kagame, um homem que tem na consciência a morte de um milhão de pessoas --que seu exército matou no país vizinho, o Congo.
DS - O que os alemães deveriam fazer?
Shikwati - Se eles realmente querem combater a pobreza, deveriam parar totalmente a ajuda ao desenvolvimento e dar à África a oportunidade de garantir sua sobrevivência. Atualmente a África é como uma criança que chora imediatamente para que a babá venha quando há algo errado. A África deveria se erguer sobre os próprios pés.
Der Spiegel ,Thilo Thielke
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
terça-feira, 30 de março de 2010
Opep pode abrir as portas ao Brasil após descoberta de petróleo
O recente achado no Brasil de uma jazida petrolífera abre as portas da Organização de Países Exportadores de Petróleo ao país, disse nesta terça-feira em Cancún Abdullah Salem el-Badri, secretário-geral da Opep.
"Acabam de fazer (no Brasil) a descoberta de uma grande jazida, o que permite que, talvez em uns cinco anos, a Petrobras ingresse na organização", disse em uma coletiva de imprensa Salem el-Badri, durante o 12º Fórum Internacional de Energia, que ocorre em Cancún.
A Petrobras está "qualificada" para entrar na Opep, mesmo que o Brasil, no setor energético, ainda seja deficiente, porque consome quase toda a sua produção petrolífera, explicou o secretário-geral.
A Petrobras anunciou no dia 16 de março a descoberta de petróleo na Bacia de Sergipe, com capacidade de 15 milhões de barris recuperáveis.
Já a estatal Petróleos Mexicanos, a qualquer momento, "poderá fazer parte da organização", dado que é um país que "não consome toda a sua produção petrolífera", acrescentou Abdullah, após explicar que não é papel da organização convidar novos integrantes.
Venezuela e Equador são os únicos países latino-americanos que formam parte da Opep, enquanto México e Brasil são considerados há alguns anos emergentes no setor.
A Opep busca em Cancún, junto com representantes de mais de 100 países e de empresas privadas de petróleo, encontrar uma saída para evitar a volatilidade de seus preços, como a registrada nos últimos dois anos.
Fonte: http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2010/03/30/
Objetivos de desenvolvimento para o milênio - BRASIL - O que já aconteceu?!
Oi galerinha,
Recebi as últimas notícias do PNUD Brasil (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) que trouxe algumas informações sobre as metas do milênio do nosso país.
Vale a pena conferir!
Bjs!
Segue:
Brasília, 26/03/2010
ODM: o que Brasil já fez e o que falta fazer
Levantamento com base no relatório nacional sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio mostra os avanços feitos em cada meta
O quarto Relatório Nacional de Acompanhamento dos ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio), divulgado esta semana, traz uma análise detalhada de vários dados econômicas e sociais ligados ao compromisso firmado pelos países da ONU, em 2000.
O estudo inclui não apenas os indicadores estabelecidos pela ONU, mas também os ligados às metas que o governo federal se autoimpôs e vários outros que ajudam avaliar melhor os avanços e desafios do Brasil nos Objetivos do Milênio. Ao todo, a publicação traz 180 páginas, 27 tabelas e 77 gráficos.
Abaixo, segue um levantamento sumário, que leva em consideração apenas os indicadores relacionados mais diretamente ao texto das metas definidas pela ONU.
ODM 1: Erradicar a extrema pobreza e a fome
Meta 1A: Reduzir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção da população extremamente pobre
— 1990: 25,6%
— Meta para 2015: 12,8%
— Número mais recente: 4,8% (2008)
Meta 1B: Alcançar o emprego pleno e produtivo e o trabalho decente para todos
— Não abordada no relatório
Meta 1C: Reduzir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção da população que sofre de fome
— 1996: 4,2% das crianças estavam abaixo do peso esperado para a idade
— Meta para 2015: 2,1%
— Número mais recente: 1,8% (2006)
ODM 2: Atingir o ensino básico universal
Meta 2A: Garantir que, até 2015, todas as crianças, de ambos os sexos, terminem um ciclo completo de ensino básico
— Número mais recente: 94,9% das crianças de 7 a 14 anos estavam matriculadas no ensino fundamental
ODM 3: Promover a igualdade entre os sexos e autonomia das mulheres
Meta 3A: Eliminar a disparidade entre os sexos no ensino primário e secundário, se possível até 2005, e em todos os níveis de ensino, a mais tardar até 2015
— Números mais recentes (2008): para cada 100 estudantes do sexo masculino havia 93,8 (ensino fundamental), 119,1 (ensino médio) e 133,2 (ensino superior) estudantes do sexo feminino
ODM 4: Reduzir a mortalidade na infância
Meta 4A: Reduzir em dois terços, entre 1990 e 2015, a mortalidade de crianças menores de 5 anos
— 1990: 53,7 mortes por mil nascidos vivos
— Meta para 2015: 17,9
— Número mais recente: 22,8 (2008)
ODM 5: Melhorar a saúde materna
Meta 5A: Reduzir em três quartos, entre 1990 e 2015, a taxa de mortalidade materna
— 1990: 140 óbitos para cada mil nascidos vivos
— Meta para 2015: 35
— Número mais recente: 75 (2007)
Meta 5B: Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva
— 1996: 55% das mulheres de 15 a 49 anos usavam algum tipo de método contraceptivo
— Número mais recente: 68% (2006)
ODM 6: Combater o HIV
Meta 6A: Até 2015, ter detido a propagação do HIV/Aids e começado a inverter a tendência atual
— Número mais recente: 17,9 casos para cada 100 mil habitantes (2007). O relatório indica que as taxas de incidência foram crescentes até 2000 e estão estabilizadas desde então, embora em patamares elevados, comparados a padrões internacionais.
Meta 6B: Alcançar, até 2010, o acesso universal ao tratamento de HIV/Aids para todas as pessoas que necessitem
— Acesso gratuito à terapia antirretroviral na rede pública está previsto na lei 9.313, de 1996.
Meta 6C: Até 2015, ter detido a incidência da malária e de outras doenças importantes e começado a inverter a tendência atual.
Tuberculose
— 2000: 41,2
— 2008: 37,2
Malária
— 1990: 32,0
— 2008: 12,9
ODM 7: Garantir a sustentabilidade ambiental
Meta 7A: Integrar os princípios do desenvolvimento sustentável nas políticas e programas nacionais e reverter a perda de recursos ambientais
— Número mais recente: 60,7% do território brasileiro é coberto por floresta natural (2008)
Meta 7B: Reduzir a perda de diversidade biológica e alcançar, até 2010, uma redução significativa na taxa de perda
Flora
— 1992: 108 espécies foram classificadas oficialmente como ameaçadas de extinção
— 2008: 472
Fauna
— 1989: 207 espécies foram classificadas oficialmente como ameaçadas de extinção
— 2003/2005: 627
Meta 7C: Reduzir pela metade, até 2015, a proporção da população sem acesso permanente e sustentável a água potável segura e esgotamento sanitário
Região urbana
— 1992: 17,7% da população não tinha acesso a água encanada
— Meta até 2015: 8,85%
— Dado mais recente: 8,4% (2008)
— 1992: 33,9% da população não tinha acesso a esgotamento sanitário adequado
— Meta até 2015: 16,95%
— Dado mais recente: 19,5% (2008)
Região rural
— 1992: 90,9% da população não tinha acesso a água encanada
— Meta até 2015: 45,45%
— Dado mais recente: 72,6% (2008)
— 1992: 89,7% da população não tinha acesso a esgotamento sanitário adequado
— Meta até 2015: 44,85%
— Dado mais recente: 76,9% (2008)
Meta 7D: Até 2020, ter alcançado uma melhora significativa nas vidas de pelo menos 100 milhões de habitantes de bairros degradados
— 1992: 49,3% da população urbana vivia em moradia inadequada
— Dado mais recente: 34,3% (2008)
ODM 8: Estabelecer Parceria Mundial para o Desenvolvimento
Meta 8A: Avançar no desenvolvimento de um sistema comercial e financeiro aberto, baseado em regras, previsível e não discriminatório
— Não mensurável
Meta 8B: Atender as necessidades especiais dos países menos desenvolvidos Inclui: um regime isento de direitos e não sujeito a quotas para as exportações dos países menos desenvolvidos; um programa reforçado de redução da dívida dos países pobres muito endividados (PPME) e anulação da dívida bilateral oficial; e uma ajuda pública para o desenvolvimento mais generosa aos países empenhados na luta contra a pobreza
— O Brasil vai conceder acesso livre de tarifa e livre de cota aos países de menor desenvolvimento até meados de 2010.
Meta 8C: Atender às necessidades especiais dos países sem acesso ao mar e dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento (mediante o Programa de Ação para o Desenvolvimento Sustentável dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e as conclusões da vigésima segunda sessão extraordinária da Assembléia Geral).
— Não se aplica necessariamente ao Brasil
Meta 8D: Tratar globalmente o problema da dívida dos países em desenvolvimento, mediante medidas nacionais e internacionais de modo a tornar a sua dívida sustentável a longo prazo.Tratar globalmente o problema da dívida dos países em desenvolvimento, mediante medidas nacionais e internacionais de modo a tornar a sua dívida sustentável a longo prazo
— Brasil perdoou US$ 1,25 bilhão em dívida externa desde 2005
Meta 8E: Em cooperação com os países em desenvolvimento, formular e executar estratégias que permitam que os jovens obtenham um trabalho digno e produtivo
— Não se aplica ao Brasil
Meta 8F: Em cooperação com as empresas farmacêuticas, proporcionar o acesso a medicamentos essenciais a preços acessíveis, nos países em vias de desenvolvimento
— Não se aplica ao Brasil
Meta 8G: Em cooperação com o setor privado, tornar acessíveis os benefícios das novas tecnologias, em especial das tecnologias de informação e de comunicações
— Não abordada no relatório
Informações tiradas de: http://www.pnud.org.br/administracao/reportagens/index.php?id01=3439&lay=apu
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
3M - Nossa discussão de hoje!
Nossa aula de hoje (26.02) ainda não saiu da minha cabeça! Há muitas coisas que eu penso, que eu leio, que eu ouço mas só se encaixam e ganham forma numa aula como aquela.
Quando vocês me questionam o cérebro começa a procurar as informações armazenadas, algumas consolidadas e outras ainda não processadas totalmente.
Como é prazeroso perceber a mente de vocês fazendo ligações tão inteligentes e autônomas!
Chegando em casa há pouco, acessei minha caixa de e-mails e vejam o que eu havia recebido:
Está mais real do que imaginamos, não é? Mas nosso objetivo e ajudá-los a enfrentar esse futuro!
Conte com a gente!
Bj e um ótimo fim de semana!
Prô Débora
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Argentina X Reino Unido
Quando eu era criança eu sempre ouvia algo sobre a "Guerra das Malvinas". Os adultos falavam bastante nela e a televisão estava sempre comentando.
Hoje, lecionando Geografia, ao tratar de América do Sul, gosto de lembrar desse fato.
Agora há pouco, lendo as notícia do uol, me deparei com a seguinte manchete:
"Prospecção britânica de petróleo nas Ilhas Malvinas reacende as tensões entre a Argentina e o Reino Unido".
Bom, o jornal Le Monde de hoje publicou uma matéria muito interessante sobre o assunto. Segue abaixo para você conferir!
Por
"Vinte e oito anos após a Guerra das Malvinas entre o Reino Unido e a Argentina, que custou a vida de 649 soldados argentinos e 255 britânicos, o conflito de soberania sobre esse arquipélago do Atlântico Sul deu lugar, na última semana, a uma batalha de comunicados entre Londres e Buenos Aires.
O conflito em torno das Ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos) ressurgiu após a decisão de Londres de autorizar perfurações petroleiras ao largo desses dois pequenos pedaços de terra fria e pantanosa situados a 600 km da Terra do Fogo, povoados por 3.140 habitantes e 500 mil ovelhas, onde a Union Jack tremula desde 1833. Descartando qualquer ação militar, a Argentina, derrotada em 1982, contra-atacou em 16 de fevereiro, decretando que os barcos que quisessem atravessar as águas de sua zona econômica exclusiva, que se estende por 370 km, para chegar ao arquipélago, deveriam obrigatoriamente pedir uma permissão a Buenos Aires.
Essas autorizações serão concedidas por uma comissão interministerial e todas as mercadorias transportadas de um porto argentino para o arquipélago deverão ser declaradas. Essa medida administrativa visa complicar as explorações petroleiras. Londres reagiu, ressaltando que as regras em vigor nas águas argentinas “não afetariam as águas territoriais das Falklands, que são controladas pelas autoridades da ilha”. Buenos Aires lançou uma campanha diplomática para lembrar seus direitos e mobilizar apoios. Na segunda-feira (22), a presidente Cristina Kirchner obteve o apoio de uma cúpula que reunia no México 32 países da América Latina e do Caribe. Estes votaram uma resolução que exortava Londres a não iniciar a exploração de petróleo. Segundo a Argentina, a Grã-Bretanha viola as resoluções da ONU que determinam que as partes não devem tomar nenhuma decisão unilateral que possa agravar seu conflito.
A campanha de exploração, entretanto, começou na segunda-feira, iniciada pela sociedade britânica Desire. Ela visa avaliar os recursos exploráveis cuja produção só começaria daqui a muitos anos. Em 1998, as companhias Shell e Lasmo apresentaram indícios de petróleo e de gás. Mas elas abandonaram as pesquisas por causa da baixa cotação, na época, do petróleo (US$ 10 o barril). Segundo um estudo da British Geological Society, realizado em 1996, as reservas dos fundos marinhos são tão grandes quanto aquelas encontradas no Mar do Norte: 60 bilhões de barris.
A situação é diferente hoje. Os preços elevados dos hidrocarbonetos, os progressos tecnológicos em matéria de extração em águas profundas e o medo da falta de petróleo reavivaram o interesse pelas águas das Malvinas. Quatro companhias “juniores” se candidataram à exploração: Desire Petroleum, Borders & Southen Petroleum, Rockhopper Exploration, Falklands Oil & Gas. O maior trunfo das Malvinas é a pouca profundidade das águas – 400 metros ao norte e 1,2 quilômetro ao sul - , bem inferior às do golfo do México, do Mar do Norte ou de Angola.
Entretanto, o isolamento geográfico tornaria muito custosa a construção de uma rede de oleodutos que levassem o óleo bruto para as refinarias. Os grandes da indústria, BP, Shell e Exxon, se recusaram a entrar em um projeto muito incerto do ponto de vista político. Os banqueiros das empresas que estão na disputa – HSBC e Barclays – temem o impacto negativo dessa aventura sobre sua imagem na América Latina.
A Grã-Bretanha mantém no local uma guarnição de 1.300 soldados, 4 aviões de combate e um destróier, além de uma guarda costeira. Mas em caso de conflito, Londres seria incapaz de recriar uma força-tarefa marítima como em 1982, por causa de seu envolvimento no Afeganistão e dos cortes feitos na Marinha Real Britânica."
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Quantas pessoas já viveram na Terra? 2
Em outubro eu escrevi aqui sobre um site legal que mostra quantas pessoas há na Terra e, com dados estatísticos bem interessantes, ele mostram em tempo real a evolução do número de habitantes.
Naquela ocasião, postei o seguinte número: 6.797.276.051
Que saber quantas pessoas temos hoje?!?!?!?!
Então, para saber é só clicar em: http://www.worldometers.info/population/
bj
Até mais!